Meu pai um dia me falou
Pra que eu nunca mentisse
Mas ele também se esqueceu
De me dizer a verdade
Da realidade do mundo
Que eu ia saber
Dos traumas que a gente só sente
Depois de crescer
Falou dos anjos que eu conheci
No delírio da febre que ardia
Do meu pequeno corpo que sofria
Sem nada entender
Minha mulher em certa noite
Ao ver meu sono estremecido
Falou que os pesadelos são
Algum problema adormecido
Durante o dia a gente tenta
Com sorrisos disfarçar
Alguma coisa que na alma
Conseguimos sufocar
Meu pai tentou encher de fantasia
E enfeitar as coisas que eu via
Mas aqueles anjos agora já se foram
Depois que eu cresci
Da minha infância agora tão distante
Aqueles anjos no tempo eu perdi
Meu pai sentia o que eu sinto agora
Depois que cresci
Agora eu sei o que meu pai
Queria me esconder
Às vezes as mentiras
Também ajudam a viver
Talvez um dia pro meu filho
Eu também tenha que mentir
Pra enfeitar os caminhos
Que ele um dia vai seguir...
Sempre choro quando escuto essa música, tento segurar mais é incontrolável, as lagrimas correm, mesmo sem querer, lembro da minha infância, da luta do meu pai em criar os filhos da melhor maneira possível, me lembro certo dia que meu pai chegou do trabalho, (trabalhava na RFFSA, Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima), era maquinista da qual até hoje se orgulha, e pouco tempo depois chegava um carro da empresa convocando para trabalhar na madrugada devido a um descarrilamento de um trem, pai questionou no meio de tantos qual o motivo de ter sido “premiado”, a resposta foi que outros estavam bêbados, ou não tinham conseguido entrar em contato com outro, e o outro critério pai não bebia, sabiam que o meu pai era evangélico. Me lembro que uma vez encontrei ele com os olhos lacrimejados pela ameaça de sair da empresa por causa das malditas privatizações e dizendo que só sabia dirigir trem.
Mundo de sonhos e fantasias, hoje me, vejo pai e tendo que fantasiar a vida para meu filho que um dia vai crescer e descobrir que vida não é só doce mais algumas amarguras.